Sobre as eleições presidenciais de 2014

Como o programa eleitoral gratuito (às nossas custas) e os debates presidenciais começaram, é impossível ficar indiferente quanto à escolha da pessoa que irá governar nosso país pelos próximos quatro anos. Eu que irei para a faculdade (caso não ocorra nenhum imprevisto) no próximo ano estou vendo quem será o presidente do Brasil durante meu curso superior, e isso é de fundamental importância, ainda mais quando as universidades mais parecem centros de disseminação ideológica que lugares para a qualificação profissional ou para a busca do conhecimento e da verdade.

Quem está acostumado com política internacional, sabe da pluralidade de ideias existentes em outras democracias, mesmo que algumas tenham poucos partidos. Nos EUA, temos os democratas e os republicanos; no Reino Unido, temos os conservadores e os trabalhistas; na Alemanha, temos os social democratas e os democratas cristãos. No Brasil, o quadro é o oposto. Temos atualmente 32 partidos registrados no TSE, e praticamente nenhum tem ideais. Quase todos servem para ser liderados por caciques ou para praticar mudanças de partido durante o mandato.

Nem mesmo os partidos mais tradicionais possuem conteúdo. O PMDB, partido daqueles que ajudaram a reconstruir a democracia brasileira na década de 1980, atualmente é um partido dominado por lideranças que condenam o país ao atraso. O PT, “partido da ética”, é alinhado ao Foro de São Paulo, está envolvido em diversões escândalos de corrupção (sem contar os casos Celso Daniel e Toninho do PT) e foi contra toda a moralidade que pregou antes de chegar ao poder. O PSDB, partido de Mário Covas e Franco Montoro, hoje está órfão e vazio de conteúdo. Sua única função tem sido fazer oposição administrativa ao PT, e nunca ideológica, e é por isso que Aécio Neves está atrás de Marina Silva nas pesquisas.

Embora descarte o voto nulo, que é o mesmo que votar em Dilma, não terei orgulho de meu voto. Estou o fazendo apenas para fazer a minha parte como cidadão. Como a bola da vez é Marina Silva, é bom comentar sobre ela.

Primeiramente, habito o Estado do Amazonas, e sei o quanto a ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula lutou contra a recuperação e asfaltamento da BR-319, e como a Zona Franca de Manaus sai prejudicada com isso. Alguns dizem que votam em Marina Silva por ela ser ficha limpa. É verdade, mas Marina continuou filiada ao PT durante os escândalos do Mensalão e só saiu do partido no final do mandato de Lula. Pelo menos nisso os “petistas ortodoxos” que migraram para o PSOL e para outros partidos de extrema-esquerda foram coerentes.

A maneira que a candidatura está utilizando da comoção pela morte de Eduardo Campos chega a ser desonesto. Os estrategistas de campanha sabem que eleições pouco têm a ver com discursos de conteúdo, mas com emoções. O voto é obrigatório. Como todos são obrigados a votar, não há a impressão de “cidadania” que existe nas verdadeiras democracias onde o voto é facultativo. Assim como o alistamento militar, o voto deveria ser facultativo e apenas aqueles que realmente desejam praticar essas atividades deveriam fazê-las. Assim como nem todos estão aptos a servir o exército, nem todos estão aptos a votar, e muitos não desejam sequer fazê-lo. Para que insistir?

Vale lembrar que a coligação de Marina Silva é composta por partidos como PPS e PPL, e em seu eventual governo, haveriam ministros ambientalistas ortodoxos. Para um país que depende diretamente do agronegócio para seu próprio desenvolvimento (e que entrou em recessão nesse trimestre) isso não é nada vantajoso. Marina também insiste no discurso de democratizar tudo. É do discurso da candidata a ideia de  “democracia direta”. Ora, todos gostamos de democracia. Ela é muito boa. Mas espere… Foi através dela que Hitler chegou ao poder (Ad Hitlerum!!!). Ok, Marina não é Hitler. Ela está muito longe disso. Mas o democratismo nem sempre é a melhor saída para a resolução de nossos problemas. Nem sempre a vontade geral está certa. Basta olharmos para a história.

Consta no programa da candidata do PSB “implantar uma Política Nacional de Participação Social e incluir movimentos em conselhos e instâncias de controle social do Estado”. Trata-se de uma ideia similar à do decreto 8243. Assisti a uma palestra do sr. Gilberto Carvalho quando estive em São Paulo no último mês. Conforme ele, “forças conservadoras e reacionárias” desejam frear o decreto. De certo modo, concordo com o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência. Afinal, reagir é sinônimo de que você está vivo. Apenas quem está morto ou em decomposição não reage diante de uma afronta. Apenas homens de geleia ficam estáticos e não reagem a estímulos externos.

O operário e a dona de casa terão tempo para participar de reuniões de conselhos populares? A resposta é autoevidente. Considerando que, em nossa democracia, todo o poder emana do povo, o governo está escolhendo quem é o povo, assim como antes da abolição da escravidão, só eram considerados cidadãos aqueles que tinham propriedades e eram homens, adultos etc. Quando o “todos os homens são criados iguais” estava em alta, não era toda a população que gozava dos direitos que têm hoje.

Marina é a favor da “democracia digital”. Em termos gerais, isso consiste em contar com a participação de ONGs e da sociedade civil no processo político. Aparentemente, a ideia parece inocente, mas é um convite para grupos de interesse. Marina também defende plebiscitos. Modificar a lei o tempo inteiro através de consultas populares é democrático, mas não protege necessariamente o Estado de direito. Se todos votarem a favor da desapropriação de determinado grupo social, estará ocorrendo um procedimento democrático, mas que é uma afronta aos direitos daqueles que foram desapropriados. O último plebiscito que ocorreu no país foi sobre o desarmamento. Embora 59% da população tenha votado contra, o governo insiste até hoje no Estatuto do Desarmamento. “Por que não convocar outro plebiscito? A voz de Deus é a voz do povo!”.

Não há como preservar direitos constitucionais louvando plebiscitos e mudando a legislação o tempo inteiro.

A vantagem de Marina ganhar a eleição seria a quebra de poder do PT. Embora o Estado continue aparelhado, tirar o poder central de suas mãos é fundamental. Mesmo assim, trocar Marina por Dilma não é diferente de trocar seis por meia dúzia só porque meia dúzia possui um nome diferente de seis, e com o mesmo conteúdo. Muitos elogiam o discurso econômico de Marina. Ora, Lula também fez o mesmo em 2002 para tranquilizar o empresariado. Infelizmente, nossa classe empresarial foca apenas em economia e em autoajuda. É conservadora apenas em relação à sua conta bancária. O programa econômico de Marina parece agradável, mas suas propostas no campo político são, no mínimo, preocupantes, mas o empresariado não está reparando nesse pequeno detalhe. Depois, quando estiverem nas mesmas condições que John Galt, não sabem o que originou tal situação.

Em se tratando de Aécio Neves, vemos uma decepção enorme. “Bem-vindo! Bem-vindo!”. Quem são os publicitários do candidato tucano? Que eleição eles desejam ganhar? Para síndico de condomínio? Não se ganha eleição comendo pelas bordas, mas atacando diretamente o adversário. Essa é a arte da guerra política, e parece que o PSDB não percebeu isso, ou simplesmente faz apenas oposição administrativa ao PT e compartilha do mesmo projeto de poder. O candidato, que já afirmou querer “reestatizar a Petrobrás” – seja lá o que isso significa -, defende um programa tão estatizante quanto o de Dilma e Marina.

Exemplo disso é a proposta paternalista denominada “Poupança Jovem Brasil”. Não se tornará mais assunto privado poupar dinheiro, mas uma preocupação do governo. A dependência do Estado está se tornando cada dia maior. Ademais, o programa se baseará em notas e na presença em aulas. É necessário ser um pouco ingênuo para acreditar que a avaliação ocorrerá de maneira correta e que o dinheiro público não cairá nas mãos de quem não cumpre os requisitos. Trata-se de um discurso similar ao de José Serra em 2010, que queria “dobrar” o Bolsa Família, dando ao programa um caráter pré-soviético. O PSDB cava a própria cova à medida que Aécio é absorvido pelas pesquisas.

Sobre os candidatos coadjuvantes, tenho algumas observações. Pastor Everaldo e seu ideário de “eu por mim privatizava tudo” é, em tese, bom. Mas parece que ninguém avisou à sua equipe de campanha que isso é muito abstrato para o povo compreender, e que o povo quer ouvir sobre problemas reais. Política não é “vamos cortar gastos”, mas sim sobre o buraco na rua de sua casa, o boeiro que está destampado, o hospital que não tem seringas, a praça que está sem iluminação etc. É impopular gastar o tempo com ideias abstratas. Política não é “pensar economicamente”, mas sim pensar pragmaticamente e popularmente. Ademais, o candidato se mostrou despreparado ao expor suas ideias.

Levy Fidelix, que sempre foi uma figura folclórica (e ainda é) teve o discurso inicial mais coerente. Defendeu a privatização de presídios e o porte de armas pela população civil. Porém, basta chegar em sua defesa da economia keynesiana e ver seu apoio à Dilma nas últimas eleições para descartar a intenção de voto.

Sobre os candidatos Luciana Genro e Eduardo Jorge, tenho os seguintes comentários. Luciana Genro acusou Everaldo (pois conforme a candidata, “Pastor” mistura religião com política) de cumplicidade quanto à homofobia. Maldita bancada evangélica na Câmara!
Primeiramente, pior que votar em alguém pelo fato de ser pastor é rejeitar votar em alguém pelo fato de ser pastor. Nas obras do autores neoateístas, consta sempre a pesquisa feita nos Estados Unidos que demonstra que os ateus são os mais rejeitados no ponto de vista eleitoral. Se os partidos de esquerda, que geralmente possuem uma concepção materialista da realidade, são contra essa rejeição à irreligiosidade, deveriam ser contra a rejeição à religiosidade.

Em segundo lugar, a candidata citou o dado de que um homossexual é morto por dia por causa de homofobia. Sei que isso é uma estimativa, mas consideremos que 365 homossexuais sejam mortos por ano por causa de homofobia: o número não chega nem perto dos 54 mil homicídios cometidos por ano no país pelos mais diversos motivos. Por que focar apenas em uma “minoria oprimida”? Apenas para acusar Everaldo ( já que “Pastor” é palavrão)? Luciana Genro está certa em afirmar que representa a esquerda coerente, pois a coerência da esquerda é não ter coerência. Afinal, “tudo é meramente relativo”. Para que se apegar a construções sociais da burguesia?

Vale lembrar também do apoio do PSOL ao Hamas e a outros regimes do Oriente Médio contra o “imperialismo americano” e o “terrorismo sionista”. Os mesmos que defendem direitos (na maioria do tempo, privilégios) aos homossexuais no Brasil apoiam regimes que enforcam homossexuais em praça pública. É fácil defender direitos em um país de cultura cristã, não? Como a “moral escrava” é terrível!

Sobre o candidato Eduardo Jorge  (que é o candidato mais folclórico até então), sua defesa à legalização das drogas e ao aborto são os principais pontos. Há uma diferença entre discriminalizá-las e regulamentá-las. Alguns países estão adotando o experimento. Talvez funcione em alguns lugares, mas é muito ingênuo acreditar que o país que é uma das principais rotas do tráfico de drogas do mundo possa receber a legalização sem grandes impactos sociais.

Quanto ao aborto, ele citou um determinado número de mulheres que estão sendo enquadradas como criminosas por terem praticado o aborto e compara a legislação atual sobre a aborto com a legislação escravocrata no Brasil do século XIX. Vale citar o Caso Roe v. Wade, de 1973, nos EUA. Tratou-se de uma farsa para legalizar o aborto em todo o território americano sob a justificativa de que 1 milhão de abortos estavam sendo praticados no país e que se tratava de um direito da mulher devido à propriedade de seu corpo. Desde então, 50 milhões de fetos foram abortados no Gigante do Norte. Curiosamente, a maioria contabilizada são negros e meninas.

Quanto à analogia com a escravidão, o candidato conseguiu inverter a posição de Ronald Reagan sobre o assunto:

“Abraham Lincoln reocnheceu que nós não poderíamos sobreviver como um país livre enquanto alguns homens pudessem decidir que outros não estão preparados para serem livres e que podem portanto ser escravos. Da mesma forma, nós não podemos sobreviver como uma nação livre enquanto alguns homens decidirem que outros não estão preparados para viver e podem ser abandonados ao aborto e ao infanticídio.”

Talvez a obsessão da esquerda quanto ao aborto seja o saudosismo do Estado soviético, que foi o primeiro a legalizar o aborto. Enfim, qual seria a função primordial do Estado que não defender a vida humana? Qual o sentido de defender liberdades civis e propriedade privada se o direito à vida não é garantido? É a mesma lógica observada por Chesterton, onde alguns “dizem que guerras são um desperdício de vidas, mas dizem que a vida é um desperdício de tempo”? Trata-se apenas da busca pelo conforto e pela satisfação imediata? Se o direito a vida não é considerado um direito fundamental, mas uma “tradição” defendida por pessoas obscurantistas, as consequências restarão à “bolha de carne” que não teve sequer o direito de nascer.

Encerro aqui as minhas observações sobre a campanha presidencial de 2014, e declaro voto, ainda que com objeções, a Aécio Neves. Acredito que estou fazendo a minha parte. Como disse John Fitzgerald Kennedy: não pergunte o que seu país pode fazer por você; pergunte o que você pode fazer pelo seu país. Espero que nas próximas eleições municipais, tenhamos algo NOVO para escolhermos. Não podemos mais ficar a mercê daqueles que louvam o deus Estado.

 

Obs: Como você puderam ver, não é um texto “imparcial”. Seria cinismo de minha parte afirmar isso nesta altura do campeonato.

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