A Tal da Mais-Valia

Por Eric Carro

No ensino padrão-MEC, aprendemos que o burguês explora a classe proletária através da mais-valia. Memorizamos essa informação, utilizamos-a em nossas avaliações de ciências humanas e mantemos essa ideia na cabeça, sem que nenhuma ideia oposta a refute. Parece-nos então que não há refutação e que Karl Marx foi o maior gênio da área de humanidades e que suas teorias são o suprassumo da intelectualidade.

A partir de tal ideia, aquele que deseja ser empreendedor, que possui um empreendimento ou é herdeiro de um – esse último “homenageado” pela terceira medida proposta pelo Manifesto Comunista, que recomenda a abolição do direito à herança – passa a ver sua ambição, seu meio de subsistência ou seu genitor como agentes malignos que exploram trabalhadores indefesos; e que a riqueza gerada pelo processo de acumulação de capital merece ser confiscada e redistribuída pelo processo revolucionário. Também é interessante lembrar como os vendedores de pipoca que têm a posse de seu carrinho são burgueses exploradores…

Vemos o marxismo sendo ensinado em cursos voltados à administração de empresas. Como deve ser bom ser conscientizado de quanto você é explorador por um professor cujos serviços você contratou! Talvez seja por isso que muitos empresários adotam como manual de autoajuda “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel. Afinal, o empreendedorismo lhe é apresentado como algo muito mais cruel que a administração estatal durante todo seu processo de formação. A conclusão a que se chega é que o maquiavelismo é totalmente compatível com à atividade exploradora de empreender.

A questão é que: há refutações à mais-valia. A origem do pensamento daqueles que refutaram a mais-valia encontra-se nos escolásticos tardios. Sim,“religiosos obscurantistas antirrazão e anticiência” exerceram um papel fundamental na compreensão da economia. Trata-se de acadêmicos da Universidade de Salamanca. Mais detalhes sobre isso podem ser encontrados através do site do Instituto Ludwig von Mises, porém buscarei ser breve mencionando Luis Saravía de la Calle e o cardial jesuíta Juan de Lugo:

“… O preço justo não é encontrado pela contagem dos custos, mas pela estimativa comum.” – de la Calle

“Preços flutuam não por causa da perfeição intrínseca ou substancial dos artigos (…), mas por conta da sua utilidade em respeito às necessidades humanas, e então apenas por conta da estimativa.” – de Lugo

Os escolásticos “obscurantistas” evitaram o que Adam Smith, que viveu em uma época “iluminada”, não conseguiu: não influenciar Karl Marx. A teoria do valor de Smith deu brecha para a teoria de Karl Marx. Conforme o historiador Thomas Woods, “foi ambíguo o suficiente na exposição de sua teoria do valor a ponto de deixar a impressão que os bens têm seu valor derivado do trabalho do trabalho realizado para fazê-lo”.

A partir do pensamento dos escolásticos, apareceu a Escola Austríaca de Economia, com a Lei da Utilidade Marginal de Carl Menger. A questão levantada por Menger foi: porque a água, cuja utilidade para o homem é inestimável, possui valor menor que de um diamante? Daí Menger deduziu que havia uma classificação hierárquica para os bens, e sua teoria foi mais uma conquista para a compreensão da formação dos preços. Certamente tais conceitos nunca serão explorados em uma educação padrão-MEC.

Em sua obra “A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo”, Eugen von Böhm-Bawerk refuta a teoria do valor-trabalho (mais detalhes em: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1606) de Karl Marx, e demonstra mais um caso de teoria econômica que nunca veremos em nosso sistema educacional predominantemente marxista em todos os níveis de ensino.

Esses teóricos influenciaram Ludwig von Mises, que demonstrou em seu livro “Socialismo” o problema do cálculo econômico em uma comunidade socialista. Não é possível haver formação de preços se não houver economia de mercado. Os preços, na economia de mercado, são formados pela estimativa comum – sendo o valor de bens e serviços subjetivo. Essa característica do processo de formação de preços demonstra que não é possível, a partir de uma autoridade central, definir todos os preços de um sistema econômico. Prova disso foi o colapso do bloco socialista e da economia planificada a partir da década de 80.

A tese de von Mises pode ser resumida da seguinte forma: quando a economia de mercado é abolida, a formação de preços é impossibilitada; e se a formação de preços é impossibilitada, não pode haver cálculo econômico. E o governo que adota o planejamento central da economia e determina os preços estará adotando preços artificiais, e não reais. Adivinhem? Sim, mais um teórico que sequer será explorado durante seus estudos no ensino padrão-MEC.

As únicas exceções a essa regra são Friedrich von Hayek e Milton Friedman, autores que este que vos escreve já viu serem mencionados em livros didáticos (mas apenas mencionados, e no contexto de críticas ao tão temido neoliberalismo). A conclusão a que posso chegar é: finja acreditar em mais-valia, teoria do valor-trabalho e afins caso queira passar no vestibular – sobretudo no Enem – ou em alguma matéria de humanas de seu colégio. Feito isso, retorne à realidade.

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