Democratas X Republicanos (parte 3)

Por Eric Carro

PS: Infelizmente, nossa gramática obriga a utilizar o topônimo estadunidense ou norte-americano para se referir àqueles nascidos nos EUA, ou a entidades originadas ou instaladas neste país. Portanto, vejo-me obrigado a utilizar o incorreto “americano” seguido por “sic”, para não fugir da norma culta de nosso idioma.

O leitor deve ter notado nas partes anteriores a afinidade deste vosso servo com o Partido Republicano. Nesta parte, tratarei do Grand Old Party dividindo-o em suas facções internas; mas, desta vez. adotarei um ponto de vista crítico a segmentos majoritários do partido. Pesquisas recentes demonstram que a maioria dos norte-americanos não se vê representada pelos dois grandes partidos, e há grande euforia em relação ao Partido Libertário, que obteve um resultado razoável nas eleições presidenciais de 2012.

Não me considero um libertário – embora o fosse há um tempo atrás -, pois libertários tratam a liberdade como princípio. O conservadorismo anglo-saxão, por outro lado, vê a liberdade como uma norma que deve ser aperfeiçoada em um processo de progressão e permanência. Além de ser mais prudente, esse ponto de vista é mais cauteloso em relação a questões de ordem moral. Os libertários, por outro lado, tendem a atribuir essas questões à esfera individual. Embora muitos libertários sejam conservadores em temas sociais – como Murray Rothbard, Walter Block, Hans Herman Hoppe e Lew Rockwell -, sua grande maioria releva mais as questões materiais que a compreensão do ser humano como um todo.

Como no Brasil as classificações de visão política são as mesmas da Europa continental, não posso me considerar um conservative aqui, mas um conservador liberal. Entretanto, se há um partido legitimamente conservative no Gigante do Norte, certamente é o Partido Republicano.

Trata-se de um partido com grandes divergências internas e com uma história interessantíssima. De presidentes infames como Nixon, Bush pai e Bush filho, até grandes nomes como Abraham Lincoln, Dwight Eisenhower e Ronald Reagan, trata-se do partido mais próximo de representar o americano (sic) médio.

O movimento conservador estadunidense surgiu como reação ao New Deal, de Franklin Delano Roosevelt. O movimento foi, inicialmente, dividido entre os libertários influenciados por O Caminho da Servidão de F.A. Hayek, os conservadores tradicionalistas inspirados em A Mentalidade Conservadora de Russell Kirk, e os anticomunistas, guiados pelos relatos do livro Witness, de Whittaker Chambers. No decorrer da Guerra Fria, o quadro do partido foi se alterando, e contou com uma grande recepção de ex-Southern Democrats. Por isso há a ligação do partido com o racismo, que, analisada em uma extensão de tempo maior, torna-se imprecisa.

Fortaleceu-se, desde a década de 1980, a facção mais importante do partido do Governo Bush, cujo surgimento se deu durante o governo Reagan: os neoconservadores. Trata-se de um nome visto como pejorativo nos dias atuais e há muita imprecisão sobre seu significado. Particularmente, indico quatro conceitos que eludicam o neoconservadorismo: hegemonia benevolente, religião cívica, excepcionalismo americano (sic) e natureza subjacente dos regimes.

A hegemonia benevolente se deu após o fim da Guerra Fria, quando Francis Fukuyama declarou “O Fim da História”. É a crença de que os Estados Unidos, como potência hegemônica, deve fazer com que o mundo siga o “rumo certo” conforme a ótica americana (sic) e promova a democracia em todos os cantos do planeta. A religião cívica dos estadunidenses é composta pela moral judaico-cristã e pelo espírito comunitário do povo, que nos leva a outro conceito: o excepcionalismo.O excepcionalismo americano (sic) defende que os Estados Unidos são uma nação superior não por questões raciais ou intelectuais – motivo que torna os neocons mais amigáveis em relação à imigração ilegal e à globalização -, mas por causa de uma ideia: a liberdade.

E os neoconservadores acreditam que a “ideologia americana” (sic) – baseada nas ideias de democracia, direitos humanos e economia de mercado – deve ser exportada mundo afora por causa de um outro fator: “a natureza subjacente dos regimes”. Esse fator, para os neoconservadores, torna de fundamental importância a política interna dos países Regimes democráticos são muito mais fáceis de lidar em assuntos externos que ditaduras. Portanto, para que a “hegemonia benevolente” seja posta em prática, é necessário que os países do mundo tornem-se regimes democráticos.

Entretanto, a hegemonia benevolente perdeu seu crédito após a intervenção norte-americana no Iraque. No Afeganistão, houve uma coalizão da OTAN – denominada ISAF – que visava capturar os terroristas envolvidos nos ataques de 11 de setembro e derrubar o regime tirânico existente no Afeganistão. A Guerra do Iraque, por outro lado, não contou com o mesmo apoio, pois a comunidade internacional desconfiava das intenções dos Estados Unidos, visto que as justificativas para a intervenção não continham justificativas compatíveis com a legislação internacional. Mesmo assim, Bush interveio no Iraque, instalou sua democracia e endividou seu país.

A religião cívica é um elemento fundamental para a sociedade americana (sic), e demonstra que esse país conseguiu unir os elementos essenciais das outras grandes civilizações que o antecederam – sediadas em Jerusalém, Atenas, Roma, Londres e formalizada em documento constitucional na Filadélia. Porém, esse elemento não justifica a ideia de excepcionalismo americano (sic). O excepcionalismo é uma ideia que possui força apenas nos domínios dos Estados Unidos, é vista com indiferença ou desprezo por outros povos do Ocidente, e vista com ódio em muitos países antiocidentais.

O neoconservadorismo, portanto, trata-se de uma ideologia caracterizada pela mentalidade revolucionária desde seus primórdios. Afinal, seus primeiros apoiadores eram ex-trotskistas que se opunham ao regime de Stalin na URSS. Apesar da mudança ideológica, muitos mantiveram a ideia trotskista de revolução permanente fresca na cabeça. Além disso, a maneira com que os neoconservadores tratam os regimes internos de cada país demonstra desrespeito pelas tradições, convenções e costumes de cada povo. Russell Kirk criticava os neocons durante o governo de Bush pai, e certamente condenaria essas atitudes.

Em oposição semântica aos neoconservadores, há os paleoconservadores. A diferença geral entre ambos é que os neocons defendem uma política externa intervencionista e o controle imigratório flexível, enquanto os paleocons defendem uma política externa não-intervencionista e com controle imigratório forte. O argumento para a imigração é que não pode proteger sua casa com a porta da frente aberta, e para a política externa é o respeito à soberania de outros países, a fim de garantir a segurança nacional norte-americana. Os paleoconservadores, diferentemente da tendência globalizante dos neocons, defendem o nacionalismo econômico, ou seja: políticas protecionistas. Seu maior expoente é Pat Buchanan, e é um dos segmentos menos influentes no partido.

Há os conservadores fiscais, cujo foco é no equilíbrio orçamentário. A posição pode ser justificada pela ideia burkeana de contrato primitivo da sociedade eterna: o Estado é um contrato entre aqueles que já nos deixaram, os que estão por nascer e os que vivem; e a responsabilidade fiscal é uma demonstração desse compromisso. Os conservadores tradicionalistas possuem atuação política praticamente nula no partido, no entanto são fortes no aspecto cultural, e seus institutos exercem grande influência até os dias de hoje na defesa das “coisas permanentes” e da “ordem moral duradoura”.

Há os conservadores fiscais. Nesse grupo, predomina a “direita cristã” e a oposição ao aborto, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, e às pesquisas de células-tronco com dinheiro do contribuinte. Embora se assemelhem com os tradicionalistas, tendem à demagogia e a propostas insensatas que nunca veríamos um tradicionalista defender. Seus principais exemplos são George Bush, Mike Huckabee e Rick Santorum.

Fora do eixo dos conservatives, há os moderados. Tratam-se de republicanos que não são fiéis aos valores conservadores americanos (sic) e são flexíveis, a fim de se tornarem atraentes para os eleitores democratas e independentes. São denominados RINOs – Republican In Name Only – pelo fato de suas posições pouco estarem relacionados com as ideias do partido. Os dois últimos candidatos a presidente pelo partido – John McCain em 2008 e Mitt Romney em 2012 – são exemplos deles.

Os libertários republicanos representam a facção mais interessante do partido. Muitas vezes vista como traidora, é a responsável por renovar o partido. Seu sucesso se deu através da pré-candidatura de Ron Paul a presidente. Embora houvesse grande discussão sobre sua política externa não-intervencionista, essa candidatura contribuiu e muito para a divulgação das ideias da liberdade nos EUA e ao redor do mundo. Mises, Hayek e Milton Friedman são os expoentes intelectuais dessa facção, e o congressista mais influente é o senador Rand Paul, que venceu a pesquisa interna do CPAC2014 para presidente da nação mais poderosa do mundo.

Há a facção dos “liberals”, que assim como os democratas conservatives, são pouquíssimo representados no partido.

O Partido Republicano foi “sequestrado” pelos neoconservadores na década de 1980, e cabe a seus membros restaurar as ideias mais importantes do partido. Afinal, trata-se do partido do cidadão americano (sic) médio e onde o patriotismo desse povo é melhor representado. A restauração das virtudes republicanas, a retomada da confiança na economia de mercado e uma política externa prudente seriam os principais desafios do próximo presidente republicano.

Gostaria de concluir este texto declarando meu apoio à candidatura de Rand Paul em 2016, e aos candidatos congressistas republicanos neste ano de 2014. A maioria republicana no Congresso conduziu os EUA à responsabilidade fiscal durante o governo Clinton; e o senador pelo Kentucky merece uma oportunidade. Afinal, os norte-americanos e o mundo estão cansados das águias e dos fanáticos que tiram a credibilidade do partido há mais de trinta anos.

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