Regionalismo, Patriotismo e Cosmopolitanismo

Por Eric Carro

Confesso que sempre tive uma visão cética sobre o nacionalismo. O nacionalismo brasileiro é bem retratado em “O Triste Fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto, em que a personagem principal é um nacionalista ingênuo e acredita nos superpoderes do espaço natural brasileiro. Tal crença o fez sugerir o tupi como língua oficial do país, ter o “último véu que lhe cobria o rosto” devido a um empreendimento agrícola fracassado – contraditório àquilo que ele havia lido em livros que “inflamavam o ego” do potencial agrário do país -, e ser executado por traição, por ter posto uma ideia abstrata acima da circunstância real e não ter sido obediente ao Marechal Floriano Peixoto.

Não pretendo me alongar muito no que concerne à caricata figura de Policarpo, que teve suas ideias refutadas pela realidade. Entretanto, vejo-me obrigado a frisar a imaginação idílica das obras de José de Alencar, que nos leva a escapar dos constrangimentos morais convencionais e, deste modo, olhar para nosso país como um lugar paradisíaco e nos fazendo temer qualquer crítica ao caráter do brasileiro.

Além disso, também é reforçada a ideia abstrata de “o bom selvagem” de Rousseau. Era a defesa do índio sem haver contato com o mesmo; e não só Alencar, mas vários outros romancistas do período também idealizavam a figura do índio. Afinal, o público leitor vivia em grande parte no Rio de Janeiro. O que lhes despertaria interesse em conhecer os índios sobre um ponto de vista não idealizado? Poucos lhe interessava.

Os leitores estavam interessados em se nutrir com a imaginação idílica dos românticos e os autores estavam em busca da formação de uma “identidade nacional”. E era essa a identidade nacional que guiava o fictício Policarpo Quaresma e vários segmentos da sociedade brasileira. Até hoje, essa “identidade” perdura e nos induz a erros.

Discursos favoráveis à “indústria nacional” favorecem mais as grandes empresas que a grande parte da população; discursos entre cujas afirmações encontra-se “o petróleo é nosso” são mais uma defesa do inchaço da máquina estatal e de funcionários indicados pelo governo. O uso da terra por cidadãos brasileiros, então, apenas na superfície: explorar os “nossos recursos naturais” é restrito àqueles que o Estado brasileiro autoriza e estão sujeitos à punição àqueles cidadãos que não pertencem a esse grupo.

Não compreendo o nacionalismo jurássico que reprime os meios de ação do indivíduo e despreza causas como a do agronegócio, que deveria ser um autêntico objeto de orgulho nacional, visto que é o responsável pelo desenvolvimento de nosso país nos últimos anos. Até parece que obrigar o proprietário rural a “obedecer a função social” de suas terras é mais patriótico. Afinal, é o que se encontra escrito na Constituição de 1988.

Vejo-me obrigado a lembrar da citação de Edward Abbey: “um patriota deve sempre estar pronto para defender seu país contra seu governo”. Sempre preferi esse patriotismo sensato a um nacionalismo pueril. Aquilo que for melhor para meu país devo acatar e rejeitar veementemente aquilo que o prejudica e entorpece. Contrariar o governo não deve ser apenas um direito, pois muitas vezes é uma obrigação daquele que presa pela preservação da pátria; em vez de defender o Estado nacional em si. O patriota, enfim, deseja conservar aquilo que há de melhor em seu país e melhorar o que não lhe satisfaz.

Confesso que nunca fui tão apegado à “nação brasileira”. Sou de uma região distante da parte “mais importante” do país, e muitas vezes vejo pessoas dessa parte “civilizada” do país tratando minha região com desdenho. Isso se torna evidente quando entro em meu barco e faço escalas de cipó para ir para essas regiões. Não queria nem entrar na questão do artesanato de nossa Zona Franca de Manaus – que produz boa parte de nossos eletroeletrônicos -, mas se trata de uma questão de sobrevivência. Aqueles que a veem como um empecílio ao desenvolvimento do país certamente não são aliados da integração nacional, e portanto os afasta de criar laços conosco.

Não vejo falha nisso. Ora, não há nada mais saudável que o regionalismo. Parafraseando T.S. Eliot, alemães e italianos, no período entreguerras, foram ensinados a pensar em si próprios primeiro como alemães e italianos, e não como nativos de uma cidade ou de uma região do país; isso criou um distúrbio em sua cultura tradicional, a partir da qual poderia surgir uma futura cultura. Não estou utilizando do “reductio ad hitlerum”, mas relatando um fato, que facilitou o triunfo do totalitarismo em determinado período histórico.

“Inúmeras divisões cruzadas favorecem a paz dentro de uma nação,” – disse Eliot “ao dispersar e confundir animosidades; elas favorecem a paz entre as nações, criando em cada homem antagonismos internos para exercitar toda sua agressividade.” Por isso, nortistas podem ver de maneira positiva o fato de alguém de outra região brasileira enfatizando o uso de barcos e cipós como meios de transporte de sua parte. Isso torna nossa cultura especial, e nos estimula a querer preservá-la de algum modo.

Ocorre o mesmo entre os sulistas norte-americanos e o restante do país, os escoseses e o restante da Grã-Bretanha entre outros lugares do mundo. Tais antagonismos são construtivos e fazem com que nossa identidade não seja absorvida, mas nos estimula a defendê-la; pois nesses momentos lembramos que pertencemos àquela região específica, e não mais ligados ao Estado nacional brasileiro e às suas vicissitudes.

Portanto, o regionalismo é o “antecessor natural” do patriotismo – e este último diferente do nacionalismo -, e sua manifestação saudável para aquele que quer o melhor tanto para sua região quanto para seu país.

Por outro lado, o nacionalismo possui um antagonista que, diferentemente do patriotismo, busca nos alienar da lealdade ao território nacional: o internacionalismo. O internacionalismo é uma das principais bandeiras do marxismo. Se a ideia corrompida de identidade nacional que ensinaram ao italianos e aos alemães os levou a defender o nacional-socialismo e o facismo, a ideia internacionalista torna o indivíduo menos apegado à sua nação e mais apegado à sua classe social, que é o  socialismo: “Proletários de todo o mundo, uni-vos!”.

Em ambos os casos, as posturas que os indivíduos seguem são determinadas de cima para baixo, e temos como consequência o coletivismo. Em pouco tempo, estaremos longe de nossas liberdades e no caminho para a servidão – como sustenta F.A. Hayek em sua principal obra.

Ao identificar as leis como “instrumento de opressão de classe” para garantir os direitos de propriedade da burguesia, os teóricos marxistas-leninistas ensinaram os proletariado a se atomizar. Segundo o filósofo britânico Roger Scruton: “Se eles não podem ser leais ao Partido Comunista e à sua causa internacional, eles ao menos não serão leais a nada e a ninguém”.

Roger Scruton nos sugere uma alternativa ao internacionalismo: o cosmopolitanismo. “O cosmopolitano é um nacionalista – ele acredita em sua própria nação. Mas ele também acredita em toda as outras nações do mundo que ele pode legitimamente chamar de ‘sua’. Ele é um patriota de um país e um nacionalista de vários.”

A definição é precisa: “um patriota de um país e um nacionalista de vários”. Ele não precisa se comprometer com as responsabilidades que um patriota de outro país possui, que é proteger seu país de seu próprio governo, mas pode apreciar e até se orgulhar dos costumes, das línguas e da cultura de outro país.

Não é necessário nutrir uma identidade de quem mora no local, e nem ao menos estar fisicamente presente em tal lugar; basta possuir admiração e contemplar aquilo que há de melhor deste lugar a que ele não pertence. Embora ele não pertença a este lugar, este lugar pertence a ele. O internacionalista não se vincula com os valores e nem possui a lealdade do cosmopolitano, apenas com uma ideia ou com interesses pecuniários.

Os apreciadores da música “Imagine”, de John Lennon, que me perdoem, mas sou incapaz de imaginar que não há países. Eles são importantes e cada um é excepcional. Por isso, acredito que o regionalismo, o patriotismo e o cosmopolitanismo são de fundamental importância para o indivíduo encontrar sua identidade e proteger suas tradições, seus costumes e, last not least, suas liberdades.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Regionalismo, Patriotismo e Cosmopolitanismo

  1. Sensacional, Eric. Parabéns.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s